Darth Otavinho
6 junho 2011

Cara Susana Singer,

Em sua coluna de domingo agora a senhora afirma que “para alguns leitores, é inconcebível publicar textos de alguém acusado de praticar ou acobertar um crime como a tortura. `A Folha mais uma vez dá voz aos que estiveram em evidência no período mais trágico da nossa história, em vez de deixá-los curtir a solidão e a vergonha dos derrotados moralmente e condenados pela opinião pública mundial´, escreveu o administrador Maurice Politi, 62, de São Paulo”. Pouco depois, você conclui: “Para a decepção de muitos, defendo a iniciativa, condizente com o pluralismo expresso no projeto editorial da Folha, de dar visibilidade à versão do ex-comandante do DOI-Codi, mesmo sabendo-se que funcionava ali uma central de tortura. Censurar é sempre a pior saída”. Opa, a fAlha ASSINA EMBAIXO desse final aí!

Ulstra: torturador-chefe com tratamento VIP na Folha

Susana Singer, a ombudsman, usou sua coluna para defender a "Liberdade de expressão" do torturador

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Para quem não sabe do que estamos falando: Susana se refere ao artigo do coronel Brilhante Ulstra, comandante do aparato de tortura em SP nos anos 70, que a Folha publicou outro dia. O milico negou qualquer tipo de tortura e desmentiu prisões e transferências. Ultra paz-e-amor rebatia artigo do economista e ex-membro do movimento estudantil e Persio Arida, que havia sido publicado na Piauí (porque o maior jornal do país abre espaço para alguém rebater uma pequena revista eu não sei, mas vamos lá). Arida, depois da gritaria dos leitores, ganhou espaço na Folha para defender-se dos ataques do torturador. E Susana, em sua coluna de ontem (aqui para assinantes),  defendeu o espaço que o jornal deu ao torturador, evocando a tal liberdade de expressão.

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Ah Susana, a liberdade de expressão… para quem está sendo processado pelo seu jornal com meu irmão, para quem teve o site cassado e está sob a ameaça de ter que pagar dinheiro aos seus patrões por conta de uma paródia, ouvir esse argumento é cômico. Mas vamos lá. Vamos supor que a Folha de fato defenda a liberdade de expressão. Então cara Susana, pergunto –a sério– e gostaria MUITO de uma resposta sua: em nome da mesma liberdade de expressão que a faz bater no peito orgulhosa para defender que um torturador diga em seu jornal na maior cara lavada que nunca torturou e ainda agrida um torturado (dessa vez com a conivência da Folha):

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1) Por quê a Folha não abre espaço para um representante do governo Ahmadinejad explicar sua posição em relação ao Holocausto –que para ele, nunca existiu? Afinal, se o maior jornal do país publica texto do chefe da tortura dizendo que não tinha tortura, obrigando centenas (milhares?) de ex-torturados a ler essa afirmação grotesca no café da manhã, nada mais natural e a favor da “liberdade de expressão” que a Folha prega, que ouçamos os argumentos do governo iraniano para sustentar que o infame extermínio de judeus em campos de concentração, na verdade, nunca existiu. Afinal, como você mesma disse, liberdade de expressão vale mesmo quando não concordamos, não é mesmo Susana?

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2) Por quê a Folha não abre espaço para um “pesquisador” que mostre que os negros são mais aptos parta funções físicas e menos aptos para atividades intelectuais, e então a escravidão estava cientificamente correta? Há muita gente na internet que defende isso. Não estou falando do horroroso crime do racismo, e sim, apenas, de liberdade de expressão, de debate de idéias.. afinal, é  disso que se trata, não Susana?

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3) Por quê a Folha não abre espaço para um cientista que diga que as mulheres, supostamente mais aptas para tarefas domésticas e familiares, deveriam ser proibidas de trabalhar fora, ficando em casa para cuidar dos filhos? Também há muitos que acreditam nisso. Ninguém aqui defende ou acredita nessas afirmações. É apenas e puramente a liberdade de expressão medida pela régua da Folha.

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Se não é assim, se você não concorda com o que estou dizendo, então por favor diga:  QUAIS SÃO OS LIMITES DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO DA FOLHA???

Por experiência pessoal sei que 1) fazer piada ou criticar o jornal não pode; 2) atacar os gays e chamá-los de doentes e anti-naturais, se for “de forma pacífica” como a Folha já pregou em recente editorialpode e 3) defender torturadores e dizer que a tortura nunca existiu no Brasil também pode. E o resto, pode ou não, Susana??

Atenciosamente, respeitosamente e com liberdade de expressão,

Lino Bocchini

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PS: “Ah, mas esse atrevido está me citando assim só pra chamar atenção”. Mas cartas abertas servem pra quê mesmo?? E para quem ainda acha ruim que cite-se nomes nesse site, leia aqui texto específico sobre o assunto.

Cara Susana SInger,

Em sua coluna de hoje a senhora afirma que “para alguns leitores, é inconcebível publicar textos de alguém acusado de praticar ou acobertar um crime como a tortura. `A Folha mais uma vez dá voz aos que estiveram em evidência no período mais trágico da nossa história, em vez de deixá-los curtir a solidão e a vergonha dos derrotados moralmente e condenados pela opinião pública mundial´, escreveu o administrador Maurice Politi, 62, de São Paulo”. Pouco depois, você conclui: “Para a decepção de muitos, defendo a iniciativa, condizente com o pluralismo expresso no projeto editorial da Folha, de dar visibilidade à versão do ex-comandante do DOI-Codi, mesmo sabendo-se que funcionava ali uma central de tortura. Censurar é sempre a pior saída”. A fAlha ASSINA EMBAIXO desse final aí!

Para quem não sabe, Susana estava se referindo ao artigo que a Folha publicou outro dia, do coronel Brilhante Ulstra, comandante do aparato de tortura em SP nos anos 70. Ultra rebatia um artigo de Persio Arida, intelectual de esquerda, publicado na Piauí (porque o maior jornal do país abre espaço para alguém rebater uma pequena revista eu não sei, mas vamos lá). Arida, depois da gritaria dos leitores, ganhou espaço na Folha para defender-se dos ataques do torturador. E Susana, em sua coluna de domingo (aqui para assinantes), defendeu o espaço que o jornal deu ao torturador, evocando a Liberdade de Expressão.

Ah Susana, a liberdade de expressão… para quem está sendo processado pelo seu jornal com meu irmão, para quem teve o site cassado e está sob a ameaça de ter que pagar dinheiro aos seus patrões por conta de uma paródia, ouvir esse argumento chega a dar náuseas. Mas vamos lá. Vamos supor que a Folha de fato defenda a liberdade de expressão. Então cara Susana, pergunto –a sério– e gostaria MUITO de uma resposta sua: em nome da mesma liberdade de expressão que a faz bater no peito orgulhosa para defender que um torturador diga em seu jornal que nunca existiu no Brasil por que:

1) a Folha não abre espaço para um representante do governo Ahmadinjad explicar sua posição em relação ao Holocausto –que para ele nunca existiu. Afinal, se para o jornal dizer que a tortura nunca existiu no Brasil, sendo que há milhares de torturados vivos sendo obrigados a ler essa afirmação grotesca no maior jornal do país, nada mais natural e a favor da liberdade de expressão que a Folha prega que ouçamos os argumentos do govenro iraniano para sustentar que o extermínio de judeus em campos de concentração, na verdade, nunca existiu. Afinal, como vocês mesma disse, liberdade de expressão vale mesmo quando não concordamos, não é mesmo Susana?

2) a Folha não abre espaço para um pesquisador que mostre que os negros são mais aptos parta funções físicas e menos aptos para funções intelectuais, e então a escravidão estava cientificamente correta. Há muita gente na internet que defende isso. Não estou falando do horroroso crime do racismo, e sim, apensas, de liberdade de expressão, de debate de idéias.. afinal, é disso que se trata, não Susana?

3) a Folha não abre espaço para um cientista que diga que as mulheres, mais aptas para tarefas domésticas e familiares, deveriams er proibidas de trabalhar fora, e teriam que ficar em casa cuidando dos filhos. Também há muitos que acreditam nisso. E, como sempre, ninguém aqui defende ou acredita nisso. É só e puramente Liberdade de expressão, medida pela régua da Folha.

Se não é, se não concorda, por favor me diga, diga para todos os leitores: QUAIS SÃO OS LIMITES DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO DA FOLHA???

O que pode ou não pode? Eu, por experiência pessoal e pelas minhas leituras diárias já sei que 1) fazer piada ou criticar o jornal não pode; 2) atacar os gays e chamá-los de doentes e anti-naturais, se for “de forma pacífica” como a Folha já pregou em recente editorial, pode e 3) defender torturadores e dizer que a tortura nunca existiu no Brasil também pode. E o resto, Susana??

 

 

PS: “Ah, mas esse atrevido está me citando assim só pra chamar atenção”. Sim, mas cartas abertas servem pra quê mesmo????

 

 

18 Comentários

  1. Nicolau
    15/10/2013

    Essa tal de “Folha” parece uma “Folha” de judeus holocaustizados e comunistas!

  2. Jorge
    18/06/2011

    Senhores, acho que a folha é um jornal para leitores de extrema direita, não é um jornal nem para leitores de esquerda ou que não tende a uma opção política, lembrando os senhores Inicialmente, a Folha de São Paulo apoiou o golpe de 1964[4] e a ditadura militar implantada no Brasil até o governo do presidente general Ernesto Geisel.
    “Um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social – realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama.” (Folha de são paulo), a pergunta que fica no ar… Quando vamos ter um jornal realmente imparcial? ou teremos que aceitar o que diz a música do RPM “Quem paga o jornal é a propaganda, pois nesse país é o dinheiro quem manda”.

  3. 18/06/2011

    A Folha de São Paulo não é aquele jornal que emprestava carros para que ilegais pudessem sequestrar, torturar e matar resistentes à ditadura nos anos 70 e 80?

    Bom, será que posso usar minha liberdade de expressão para dizer que suponho que a senhora Susana Singer e seus cúmplices, digo, colegas,tenham gravações de gritos de torturados e filmes de sevícias e assassinatos com que se deliciam na hora do café da redação. Afinal, se o general torturador pode fazer suas hipóteses, eu posso fazer as minhas. Ou não?

  4. Paulo
    17/06/2011

    Bom texto e argumento. Engraçado, o pessoal a Falha continua ligado para minha casa para que eu renove a assinatura. Quando digo que em casa tenho papel higiênico comprado no mercado eles não entendem. O que será que acontece?

  5. Diego
    17/06/2011

    Gosto desse site mas acho que você fez uma comparação com a “Farsa do Holocausto” não muito boa. Pois oficialmente o presidente do Irã não nega a existencia do Holocasto, nas entrevistas que ele dá ele fala que nunca negou a existencia do Holocausto. O fato que ele nego o holocausto não é oficial, é o que todo mundo , como voce diz no artigo.

  6. […] trazem oásis de frescor à empresa. Refere-se a pessoas como Otávio Frias Filho, Sérgio Dávila, Susana Singer, Taís Gasparian, Eliane Canatanhêde, editorialistas e mais diretores, editores e chefes em geral […]

  7. Remindo Sauim
    09/06/2011

    Folha, melhor não ler.

  8. Mariana Sgarioni
    08/06/2011

    Lino, só complementando o que a Sarah falou: a Folha já publicou um artigo de um sujeito defendendo que os negros tinham sido responsáveis pela escravidão. O sujeito se auto-intitula um porta-voz da nova direita. Com isso, já vendeu milhares de livros.

  9. 07/06/2011

    Meu caro, o texto da profissional reflete mais do que falta de inteligência. É da pior espécie esse texto em que dar voz a um sabido torturador, negando qualquer tipo de tortura. É deletéreo. É pusilânime.
    Saudações,

    Mari-Jô Zilveti
    http://botecocultural.com.br

  10. admin
    07/06/2011

    Márcio, acabo de ver, o texto que você postou é de ninguém menos que ele, o único, o grande… Sergio “Freedom of Speech” Dávila!!! hahahahahaha!!! Tá tudo explicado…
    Abs, Lino

  11. paula
    07/06/2011

    Gustavo Berocan arrasou!

  12. Márcio
    07/06/2011

    Oi Sarah,

    achei uma entrevista mais recente (2007) da Folha com o autor do livro que você citou. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u342554.shtml

    “Uma aula de liberdade de expressão.”

  13. 07/06/2011

    Minha opinião é que ainda que o texto do Persio Arida fosse 100% literatura a “resposta” do coronel Ustra não passa de um relatório militar. E está pra nascer um BO da ditadura militar que relate o uso de tortura. O que não quer dizer que não houveram torturados, mortos e desaparecidos pelas mãos da ditadura militar. Mais um motivo pra abrir TODOS os arquivos da ditadura e recuperar nossa memória recente. Porque a Folha não se adere à campanha ao invés de dar guarida à uma versão obscura do período referidos por alguns como “ditabranda”? É muito perigoso o discurso que tenta apagar as cicatrizes da ditadura. E o fato do jornal dar voz a uma opinião que contraria decisões judiciais o coloca não como mero veiculador de uma opinião, mas no papel de cúmplice. O que diriam se um estuprador ou um pederastra quisesse escrever um artigo? A opinião do coronel Ustra viola a memória de todas as pessoas mortas, torturadas e desaparecidas pela ditadura militar.

  14. admin
    07/06/2011

    E essa história de dizer que defender o direito à homofobia “é legal”… pelo amor de Deus…

  15. admin
    07/06/2011

    Carto Filipe, negar a existência do holocausto também não é crime. Claro que eu sou contra, sei que é um absurdo, mas não está na nossa Constituição. Mas deveria estar nas páginas do jornal?

  16. 07/06/2011

    Acho que tem, sim, de dar voz a todo mundo, até ao torturador Ulstra. Afinal, não cabe ao jornal, muito menos ao jornalismo, julgar alguém.

    Há de se abrir espaço para diferentes vozes – domingo havia alguém defendendo a descriminalização da maconha. O limite da liberdade de expressão é a difamação, a injúria e o preconceito.

    Defender, em editorial, o direito à homofobia é legal pq a homofobia ainda não é crime. A falha é da legislação, o jornal atua dentro das brechas da lei. Se defendesse o direito ao racismo, por exemplo, seria crime, apologia ao crime. Simples.

    Sabemos de todas as falhas da FAlha. Mas precisamos aprender a lidar com o conservadorismo, senão não seremos democráticos.

    A única coisa injustificável, mesmo, é a censura ao site. O resto, infelizmente, tem fundamento.

    um abraço

  17. 07/06/2011

    A Folha está errada em seu todo, mas não nesse caso. Realmente, ela deveria se expressar claramente e dizer de que lado está, porém todos têm o direito de dizer o que pensam, ainda que seja mentira.
    O dever da Folha é reunir dados e mostrá-los ao público. Uma pessoa (mesmo que em um cargo tão respeitado), não deve ser a voz do jornal, principalmente quando essa voz ofenderá tantas pessoas, que realmente passaram por torturas.
    Creio que o ombudsman está certo em defender a liberdade de expressão, mas o jornal está errado ao aceitar tal afirmação de braços cruzados e simplesmente cuspí-la ao leitor. Sem oferecer também a informaão correta.

  18. Sarah
    06/06/2011

    ENtão, eu não tenho mais, mas me lembro de uma matéria de primeira página que a Folha fez dando espaço a um livro chamado The Bell’s curve, em 1994 ou 95, que defende que o QI é uma questão racial e que prega a superioridade branca entre outras pérolas. Me lembro de já na época (eu tinha uns 12 anos) ficar chocada que eles colocaram aquilo como “polêmico” mas não contrariavam o que estava dito no livro, não chamaram nenhuma voz contrária a teoria.

    Então, não falta a folha falar que negros são emnos aptos pro trabalho intelectual,porque eles já falaram isso.

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