Darth Otavinho
7 janeiro 2011

Por Lino Bocchini

Poucas coisas irritam mais do que não conseguir falar com uma pessoa de verdade nos serviços telefônicos de operadoras de telefonia, internet, TV a cabo e afins. Entre jornalistas é comum até apelar para as assessorias de imprensa das companhias, tamanho o desespero por não conseguir falar com um gerente, supervisor, encarregado, qualquer um que resolva o problema. Quando começou a polêmica da censura da Folha contra a Falha, eu, meu irmão e metade da blogosfera brasileira ficamos falando sozinhos. Ninguém do lado de lá se manifestou. Um silêncio total na Barão de Limeira ignorou –e segue ignorando– a gritaria coletiva. Nenhuma surpresa, assim são as grandes corporações. Não têm rosto, nem voz. Restam gravações, atendentes mal pagos, impessoalidade.

Cansei de ouvir, de gente de dentro e de fora da Folha, que a decisão de nos processar “não tinha nada a ver com a redação”, e seria “do jurídico”. Mas quem são essas instâncias? Alguém trabalha lá, responde por aquilo, planeja suas ações. Quando você não consegue resolver o problema do seu celular ou da sua TV a cabo, a culpa não é do coitado do atendente nem do departamento X ou Y. A responsabilidade é de quem manda nessa turma toda e bolou esse sistema perverso, feito para que você não fale com quem decide. Aliás, feito pra que você sequer saiba quem decide.

Funciona exatamente assim no caso do processo da Folha. Não é o “departamento jurídico” que assina a ação de 88 páginas que ameaça a mim e a meu irmão. É a advogada Taís Gasparian, que tem nome, sobrenome, registro na OAB e que, na hora de ir para o México, como foi no ano passado, falar em nome da Folha na SIP, a Sociedade Interamericana de Prensa (entidade patronal que supostamente defende a liberdade de expressão) ela representa esse papel com orgulho. Então sinto muito, na hora de protocolar na Justiça um catatau contra uma blog nanico de paródia e pedir dinheiro em indenização para dois irmãos sem ligação com entidade alguma, vai ter que mostrar a cara também.

Quando em um evento sobre Liberdade de Imprensa na TV Cultura eu abordei o editor-executivo da Folha, Sérgio Dávila, ele acabava de dar a quinta entrevista seguida em nome do jornal, falando sobre a sua preocupação pessoal -e da Folha- com o que ele acredita serem movimentos do governo contrários à liberdade de imprensa no Brasil. Justo que ele fale assim institucionalmente, afinal é dele o maior cargo da redação. Logo, é igualmente justo que ele represente a Folha também na hora de responder sobre um caso de censura que mobilizou até a Repórteres sem Fronteiras (maior organização do mundo em defesa da liberdade de expressão) e Julian Assange, criador do WikiLeaks, que condenou o jornal duramente, em entrevista ao Estadão.

O mesmo acontece com os irmãos Frias, Otávio e Luís, os dois principais nomes do Grupo Folha. Afinal, a empresa é deles. Otávio, que responde mais pelo lado editorial, infelizmente (ou felizmente) tem que ser cobrado também pelas decisões polêmicas de sua empresa. Da mesma forma que o dono da padaria que você vai todo dia tem que ser cobrado se te vender um requeijão vencido. Da mesma forma que o alto executivo de uma operadora de TV a cabo deveria ser cobrado pelas dores de cabeça que causa a você e a sua família.

Falo tudo isso porque gostaria sinceramente de deixar muito claro a todos que estão acompanhando essa disputa, mas principalmente às pessoas que trabalham na Folha, que não tenho nenhuma raiva pessoal de ninguém. A queda de braço não é contra o Otávio, o Sérgio, a Taís, a ombudsman Susana Singer ou a colunista Eliane Cantanhêde. É contra a empresa que eles representam. Dar nome aos bois, contudo, deixa as coisas mais claras, a conversa sai da zona de conforto. Cai o véu institucional que deixa tudo impessoal e as pessoas físicas acabam sendo obrigadas a tomar posição, o que acho bastante saudável.

Não quero e não vou –mesmo– ficar choramingando, mas confesso que não tem sido nada fácil. Tenho dezenas de amigos e conhecidos em comum com cada uma dessas pessoas. Já ouvi de muita gente nas últimas semanas que eu não deveria citar nominalmente ou brincar com fulano ou sicrana, porque ele(a) é “gente boa”, culto(a), tem bom papo, é bacana… acredito que talvez sejam mesmo.

(Abre parênteses: caso Folha X Falha à parte, não é estranho que sempre digam que o executivo Y é suuper gente boa, que a herdeira X é no fundo uma óótima pessoa e o figurão N é bacana dee verdade e, mesmo com todo mundo sendo tãão legal, o mundo esteja tão lascado? Fecha parênteses).

Trabalho há quase 20 anos como jornalista, já passei pela Abril, pelo próprio Grupo Folha, assessorias de imprensa pública e privada, e tantos outros lugares. Enfim, tenho quase 40 anos, uma carreira razoável e família pra sustentar. Não sou um “moleque”, como algumas vezes têm me chamado. Mas isso não me impede de ser bem-humorado e ter um pouco de ousadia –ainda bem.

Por fim, achei bom reforçar que, obviamente, ninguém é “bom” ou “mau”, isso é coisa de novela, de Hollywood. Só que não tem jeito. Não dá pra você assumir o principal cargo do maior jornal do país, por exemplo, e não querer que junto venha algum ônus. Não dá pra ficar dizendo que é tudo culpa “do jurídico” e jogar a questão no colo de departamentos e entidades abstratas, tirando o seu da reta. Essa história de corporações sem rosto não ajuda a ninguém, a não ser aos rostos que aparecem nas reuniões internas de final de ano na hora de partilhar os lucros que eles conseguiram em cima de você.

14 Comentários

  1. […] Reproduzo artigo de Lino Bocchini, publicado no blog “Desculpe a nossa falha”: […]

  2. 06/09/2013

    Thank you for the auspicious writeup. It in fact used to be a leisure account it. Look advanced to far introduced agreeable from you! However, how could we keep in touch?

  3. […] ______________________________________________ PS: “Ah, mas esse atrevido está me citando assim só pra chamar atenção”. Mas cartas abertas servem pra quê mesmo?? E Para quem ainda acha ruim que cite-se nomes nesse site, leia aqui texto específico sobre o assunto. […]

  4. […] com uma pilha de jornais velhos, com o telemarketing? Conforme já escrevi  com mais detalhes, empresas têm rosto. E seria melhor para o mundo que tivessem cada vez mais. Desculpe a nossa […]

  5. […] advogada Taís Gasparian) que nos ameaça com represálias financeiras (aliás, caso interesse, aqui a explicação do porquê citamos as pessoas da Folha nominalmente). Vamos aos trechos que a Folha […]

  6. Remaj
    08/01/2011

    Sabe, não faz muito tempo, talvez 10/12 anos, lia a FSP pelo fato da mesma não se identificar tanto com o estilo direitão da OESP, fora ainda possuir uma jornalística com uma apresentação visual mais leve. Nunca assinei pois preferia sempre obter minha cópia com o jornaleiro amigo em frente ao escritório.

    Não compro mais e não leio mais a Folha, ao contrário, compro sim o Estadão, isto ainda e somente nos dias úteis. Não que Estadão seja imparcial mas sim pelo fato de ser menos cara dura, pelo fato de possuir, ainda que um pouco mais, matérias um menos tendenciosas, mais ao sabor da análise do leitor. Outra coisa que mudei foi o hábito de após o expediente, levar ele para casa; não faço mais, deixo no lixo do escritório e completo minha atualização de noite na Internet.

    Como era um “duro” em matéria de computador, pouco a pouco fui aprendendo com os filhos e assim, já passados 4 anos, completo toda informação de que preciso e gosto, acessando blogs e fóruns. Revistas, nunca mais, nenhuma assinatura – só internet, pesquisando Google com as últimas das Ciências, documentários, resenhas, trabalhos de minha área – Engenharia, etc. Que maravilha são os recursos que hoje podemos ter acesso e o grau com que nos vemos envolvidos com esta telinha aqui na frente, algumas vezes falando com pessoas que nunca conhecemos sequer pessoalmente, outras vezes lendo artigos que somente antes estavam disponíveis em bibliotecas ou com a participação em cursos e seminários; que disseminação de informação é possível com ela e quanto democratica ela é.

    Que pena me dá então a televisão de hoje, perdeu todo conteúdo, não mais instrui, apenas repete; até de TV por Assinatura já me livrei – somente parabólica normal. Quando iria eu imaginar toda esta revolução que hoje podemos participar. Olha que tenho 56 anos, fico imaginando o que será para meus netos.

    Tem meu apoio pessoas como vocês jornalistas de blogs que ajudam a democracia neste meio. Sinto muito por vocês enfrentarem esta situação com a FSP mas sei que, pelo seus exemplos, muito mais irão seguir o caminho e irão aprender como contornar e mesmo pouco a pouco solapar a credibilidade do jornal em relação aos leitores. Está foi a opção deles FSP; nós como leitores e seguidores, devemos fazer nossa parte e cada vez mais ajudar a formar opinião.

    Minha contribuição modesta à causa foi cancelar minha assinatura UOL após 10 anos e meio; estou indo para outra, a Inter.net. Convido outros a fazerem o mesmo; não dá mais para continuar a alimentar a vergonha que se transformou FSP, UOL, Veja, Globo e etc.

  7. Carlos
    07/01/2011

    As pessoas pensam que nunca estão sendo observadas. Uma empresa se firma através de gerações pela imagem que passa.
    E a F. de SP desde a década de 60 está montando a imagem que a cada dia se firmará mais nas gerações de hoje, como nas futuras também. Quem sabe se no futuro não poderei dizer para meus netos que há uns anos atrás existiu um jornal que tinha tudo para se perpetuar como informativo honesto e verdadeiro da realidade do País , mas, no entanto, se perdeu e fechou porque seus dirigentes não sabiam que maldade e manipulação da opinião pública um dia tem fim, perde a credibilidade e consequentemente aqueles que podem comprar seus produtos: Notícias.

  8. 07/01/2011

    Fuerza, que el sacrificio vale para demostrar que se puede hacer frente a los poderosos de la prensa, que paradojicamente son los más abusivos con los derechos de los demás…

  9. Flávio Paes
    07/01/2011

    Eu queria uma cadeia onde pudéssemos encarcerar as pessoas jurídicas que saem da linha. Mas PJ, nem quando mata, vai em cana. No máximo uma multinha, e mesmo assim com o jurídico esperneando…

  10. Ricardo
    07/01/2011

    Todo o apoio nessa briga, e agradecemos por não ter fugido dela. Fica algum prejuízo, mas sobra o patrimônio intelectual dessa tremenda discussão. É um caso de externalidade negativa. Você vai tomar paulada de todo lado, e coletividade vai ganhar muito, tomando consciência de muitas contradições, e criando anticorpos contra esse comportamento empresarial duvidoso.

    Concordo com o ponto do texto. Se os bancos tivessem cara, quantos deles teriam coragem de enviar os famosos cartões de crédito não solicitados, tomando 1 único real por pessoa? Mas de uma carteira de 10 ou 50 milhões de pessoas. Quantos teriam coragem de cobrar o seguro contra fraudes no cartão de crédito – sem permissão – vitaminando o faturamento sem qualquer preocupação ética?

    A separação entre pessoa física e jurídica facilita o comércio. Tudo que é facilitado, ocorre mais. E queremos que o comércio ocorra cada vez mais, para que todos fiquem mais ricos, tenham renda, e troquem serviços e bens.

    Mas essa separação entre pessoa jurídica e física também facilita o esgarçamento da ética, porque o peso da responsabilidade não cai sobre o autor do ato. Fica arquivada em um papel em cartório, que pode até trocar de nome. Raramente se vê algum jornalista tentar descobrir o responsável pelo ato quando uma empresa produz um ilícito. Ou será que propinas e falências são entregues e levadas a cabo por um ente virtual?

    Sobre o ponto de ser bonzinho, legalzinho, simpático, lia ontem uns rabiscos de velhas aulas de criminologia na USP. O problema da punição ao criminoso de colarinho branco é que ele obrigatoriamente tem todas essas características de pai de familia exemplar. Não faria nem sentido a prisão, porque a prisão seria para ressocializar (na teoria). Mas não existe sujeito mais socializado do que o criminoso de colarinho branco. Os pequenos desvios éticos sempre ficam escondidos. E quando aparecem, muitas vezes estão em situações dúbias como essa. E sobre conhecer pessoas, quem tem renda acima de 2.000 reais provavelmente conhece todas as outras. Os Linkedin e Facebooks estão ai para demonstrar. É terrível como as pessoas tem pouca consciência. Não conseguem diferenciar a imagem dos atos. E preferem julgar quem vai contra uma suposta simpatia de papai noel. É o tal do “meu irmão/amigo nunca faria isso” quando o sujeito aparece sendo preso em flagrante.

    Parabéns pela dedicação. Não vai render dinheiro, nem promoção no emprego, nem louvores do patrão. Provavelmente algum prejuízo. Mas são pessoas assim que produzem as melhores transformações sociais. Mais do que 100 anos de moralismo em qualquer jornal. Realmente precisamos aprender a dar nomes aos bois. E os bois precisam aprender a assumir a paternidade dos seus bezerros mais feios.

  11. Zero
    07/01/2011

    Quando vocês ganharem a ação (e vão, porque qualquer estagiário de direito vê que esse processo não tem substancia), façam um documentário curto em vídeo no melhor estilo Michael Moore (com direito a entrevista relâmpago ao presidente da Folha e conversas com especialistas no meio) e publiquem as melhores partes gratuitamente no YouTube. Garanto que esse documentário vai fazer parte ad eternum em videotecas das universidades Brasil afora, principalmente nas áreas relacionadas à direito e comunicação.

  12. Euclides F. Santeiro Filho
    07/01/2011

    Perfeito!

    Era isso que eu queria dizer com minha crítica.
    Seu parênteses resume tudo.

    Com certeza você vai perder bastante enfrentando um “gigante” desses. Mas é uma escolha, você poderá filtrar quem de fato é confiável, os que trabalham lá ou não.

    Ganhar desafetos é ônus de dizer verdades.

    Abraços.

  13. 07/01/2011

    Meu amigo quando não nos querem ouvir que façamos mais barulho!

    Comece a organizar uma manifestação em frente à mesma, quem saber aparecerá alguém que possa responder algo!

    Esses grupos vivem cercados de paus-mandados, que a qualquer momento abrem as pernas para a alegria do patrão!

    Veja essa passagem da grande lacraia bem cheirosa da fossa de São Paulo “cantanhêde: brasileiro, O Lula usou a sua imensa popularidade para jogar as pessoas contra a grande imprensa, enquanto “comprava” o apoio de todo o resto. O Franklin é meu amigo há anos, mas ele estava muito mal humorado, muito rabugento, esquecendo as décadas em que foi, ele mesmo, um jornalista da ativo e, portanto, comprometido com a crítica, a investigação, a cobrança. A Helena Chagas, também minha amiga, é mais serena e vai saber lidar com os naturais confrontos entre governantes e uma mídia independente”

  14. Nosso país está fadado a voltar a época ditatorial com atitudes arrogantes, mesquinhas e hipócritas como essa da folha.

    Quanto mais esse processo se extende, mais essa Lama de SP deixa o assunto no limbo, a mão de uma advogadazinha de quinta, que só pensa em liberdade de expressão quando o nome dela que vai ser favorecido.

    O que estão fazendo com a Falha é mais grave do que o que estão fazendo com o Assange, pois o dele são documentos ditos extra-oficiais, mas o Falha é um simples blog de entretenimento e humor.

    As pessoas deviam se mobilizar e parar de comprar esse veiculo de má informação, manipulador e ditador.

    Pena que esse comentário não irá muito além aqui do Desculpe Nossa Falha, mas mesmo assim deixo para todos pensarem: “Será que um dia o Brasil realmente se tornará país de primeiro mundo com atitudes ditadoras como essa”

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